[RETALHOS DE SANGUE] – Ann Arrows

E surgem os Retalhos de Sangue – pequenos trechos, pequenos dizeres, que de alguma forma moldam o universo de Rosa Imortal. A ideia não é trazer histórias completas, nem mesmo contos, apenas alguns devaneios da autora em busca de tridimensionalidade em seus personagens.

Como primeiro post dessa nova sessão, apresento-lhes Ann Arrows. Mas na época, ela era somente Mary-Ann, a duquesa de Caterham…

Aguardo comentários…

Grace Phipps, como Ann no “Elenco dos Sonhos – ROSA IMORTAL”

 

“…Procedamus in pace

In nomine Christi, Amen

Cum angelis et pueris, fideles inveniamur

Attollite portas, principes, vestras et elevamini,

portae aeternales et introibit rex gloriae

Qius est iste Rex glorie?…”. (1)

 

Voltado para o altar, o obeso padre rezava consagrados versos, levando consigo todos os fiéis a orarem por senhor nosso Deus. Mas nem todos o acompanhavam nos pensamentos e doutrinas, embora a platéia da Santa Missa aparentasse ser por demais homogênea. Todos os cordeiros de Deus…

Mas a pequena Mary-Ann estava mais entretida em observar os detalhes barrocos da igreja. Seu olhar atento observava o quão bem entalhados eram os pedestais das antigas imagens dos santos e o quão belos eram os abrigos das grandes janelas. Os vitrais, que mostravam de maneira esplendorosamente reais fatos ocorridos na curta vida terrena de Cristo, traziam uma colorida luminosidade para o interior da igreja, ao serem banhados pela luz dourada do sol da manhã.

Nada escapava ao olhar crítico da menina, de apenas sete anos de idade. Esperta demais para a idade, diria quem percebesse o brilho em seus olhos inteligentes. Tão esperta que olhava a riqueza da vida ao seu redor sem sequer demonstrar que o fazia. Apesar da pouca idade, seus grandes olhos azuis-violeta já haviam lhe ensinado a se calar na hora certa, e a ouvir mais do que falar.

Na Grã-Bretanha do século dos pensadores, ainda era muito cedo para se acreditar em liberdade plena de pensamento, essa conquista vinha acontecendo aos poucos. De qualquer forma, cedo demais ao se tratar de mulheres. Para a sociedade da época, mesmo as mulheres de família nobre, que teoricamente poderiam ter como garantir financeiramente sua educação, ainda assim essas deveriam ter acesso à informações restritas, visto que eram apenas mulheres. No caso específico da jovem Mary-Ann, ela deveria tomar consciência de sua linhagem, da importância do legado Caterham para o reino e aprender as nuances de como se portar como uma duquesa que era.

Fardo pesado demais para uma criança. Afinal de contas, ela era a oitava duquesa de Caterham, Mary-Ann Katherine, embora não tivesse havido qualquer possibilidade de escolha. Liberdade não fazia parte dos conhecimentos aos quais a menina poderia ter acesso.

Mary-Ann sentiu um puxão em sua mãozinha, despertando-a levemente de seus devaneios. Sua mãe a puxava, murmurando que a missa havia acabado e que elas precisavam ir embora. Um tanto atordoada, Mary-Ann só voltou completamente à realidade após observar o vôo de um pardal para fora da igreja. Liberdade…

Sorte ela tinha, por assim dizer, de ter uma mãe por demais distraída. A jovem duquesa Stephanie fora criada segundo todas as tradições, e nela todas as doutrinas haviam funcionado da maneira perfeita para a nobreza. Mas havia um preço a pagar por tal adequação ao meio: ser cega até mesmo aos tristes olhos da filha. E essa distração era a arma utilizada inconscientemente por Mary-Ann, para possuir uma pequena porção do mundo a sua volta sem que tal anseio fosse notado. Outro aspecto que passava despercebido à duquesa Stephanie era o quão mentalmente superdotada sua filha era.

Ainda lhe faltava tempo para que pudesse alçar vôo, e Mary-Ann tinha noção plena disso, apesar da pouca idade. No entanto, quando chegasse a hora, ideologicamente ela estaria pronta. Mary-Ann esperaria. Pacientemente.Um dia o mundo conheceria uma forte mulher chamada Ann Arrows. Ela podia sentir essa estranha força dentro de si, embora não fizesse idéia de sua real natureza.

As duas duquesas, mãe e filha, caminhavam um tanto apressadamente em direção à fina carruagem, que as esperava em missão de levá-las em segurança de volta ao lar. Preocupação garantida pelo dinheiro e pela influência de Sir Francis, esposo de Stephanie.

Sir Francis Robert Arrows poderia ser classificado como um membro atípico da nobreza, embora tivesse aprendido a seguir as regras com perfeição. Sua linhagem tivera origem num decadente ramo da nobreza escocesa, mas que nunca se deixara extinguir. Ele era um homem forte, que sabia exatamente o que queria e quando iria conseguir seus objetivos, um de cada vez. Fora assim quando ele se encantara com a pálida beleza da duquesa Stephanie. Francis sabia que, de alguma forma, ela seria dele.

Fora essa estranha força que rumava sua vida a maior herança viva de Francis em sua filha. Os profundos olhos de Mary-Ann refletiam a chama vital de seu pai.

— Meus tesouros! Como é bom vê-las de novo. — Cumprimentara delicadamente Francis, quando avistou sua esposa e sua filha entrando pelo jardim do palacete da família.

— Papai! — Mary-Ann disparou correndo na direção de Francis, deixando sua mãe para trás. Ele pegou a menina pelos braços e girou-a ao redor de si, ‘fazendo-a voar’, segundo palavras dela. Prática já comum entre pai e filha. Stephanie aproximou-se dos dois, entre risos.

— Vocês dois não conseguem mesmo se desgrudar, não é mesmo? — voltando-se à Mary-Ann — Vamos entrando, mocinha? Não se esqueça de que madame Geneviève já está te aguardando para a aula.

Mary-Ann fez uma careta imperceptível ao ouvir o nome de sua famigerada professora de piano, mas no minuto seguinte já se dirigia apressada ao salão de música. Francis pegou sua esposa pela mão e dirigiram-se calmamente para um dos jardins da imensa propriedade.

Mais um domingo tranqüilo se desenrolava na família Caterham-Arrows. Era o ano de 1735 que se ia sem muita pressa.

 


1) Deixe-nos entrar adiante em paz. Em nome de Cristo, assim seja

Nós acharemos a crença na companhia de anjos e crianças.

Ergamos nossas cabeças aos portões gloriosos, deixemo-nos erguer

às portas perpétuas, e o rei de glória entrará.

Quem é o rei de glória?

 

(Trecho de oração em latim, retirado da música “Sadness part 1”, do projeto musical alemão Enigma)